Como é ser uma princesa
Sarah Culberson decidiu desvendar suas origens e acabou descobrindo que faz parte da nobreza.
Aos 28 anos de idade, decidi contratar um detetive particular. Eu havia sido adotada três dias após meu primeiro aniversário por uma família branca do estado americano de West Virginia. Eu não parecia com ninguém da vizinhança e nem sequer com algum membro da minha família. Meu pai, Jim, era professor universitário e minha mãe, Judy, ensinava crianças com problemas de aprendizado. Embora meus pais não entendessem bem como a vida era para mim, eles se preocupavam com o meu bem-estar.
Foto: Nicolas Eastman/Cortesia de Sarah Culberson
A família Culberson
No entanto, eu tinha várias perguntas e queria conhecer meu pai biológico, mas a gente nunca sabe o que vai encontrar. Talvez ele não quisesse me conhecer, e eu tinha muito medo de ser rejeitada.
Contratei um investigador particular em 2004, e em somente três horas eu já estava de posse das informações de que precisava. Escrevi uma carta e, quatro dias depois, recebi um telefonema. Quando meu pai biológico me ligou da Serra Leoa, a primeira coisa que ele me disse foi: "Me perdoe; eu não sabia como encontrá-la".
Meu tio me perguntou: "Você sabe quem você é?". Eu respondi que era a Sarah. Ele continuou dizendo: "Você pertence a uma família real da Serra Leoa e pode se tornar uma líder um dia. Sarah, você é considerada princesa na Serra Leoa".
Isto me fez pensar no significado dessas palavras, se deveria ser perfeita, se tinha que sempre ser impecável. A possível notoriedade não me atraia.
Tive uma experiência incrível quando fui à Serra Leoa pela primeira vez, naquele mesmo ano. Centenas de pessoas me receberam cantando e dançando na aldeia de Bumpe, da minha família. Meu pai biológico, Joseph, organizou uma cerimônia para minha mãe biológica, Penny. Eles se conheceram quando ele estava na universidade, nos Estados Unidos, e ela morreu de câncer quando eu tinha só 10 anos. Fiquei impressionada por ter respostas sobre minhas origens e pela beleza exuberante da Serra Leoa.
Joseph, o pai biológico da Sarah Culberson
Eu tinha medo do título de princesa porque o associava a pessoas que ficavam em algum tipo de pedestal. Eu não sabia como abraçar este título. Então, comecei a pensar que, quando criança, estava constantemente procurando pessoas que se parecessem comigo. A África tem uma história rica, mas por causa da colonização só a aprendemos em fragmentos. Isto inclui o conceito de realeza africana. Os britânicos só queriam que houvesse uma rainha, a da Inglaterra, por isso tentaram se livrar desses títulos na África.
Então, se eu negasse esta parte da minha história, estaria negando minhas origens e também os reis e rainhas daquele incrível continente. Percebi que não se tratava apenas de mim, mas do outros também. Assim, consegui abraçar o título.
À medida que o estado de animação diminuía, aprendi o que havia acontecido na Serra Leoa durante seus 11 anos de guerra civil. Eu fui lá dois anos depois que a guerra terminou. A escola fundada pelo meu avô tinha sido incendiada. Eu vi pessoas sem braços e pernas. Foi horrível.
Eu não poderia simplesmente voltar a Los Angeles e dar aulas de dança. Eu tinha crescido numa família que vê o mundo de modo muito diferente. Meu pai se empenha em combater a fome por meio do Rotary. Minha mãe sempre foi dedicada ao servir. Os dois nos criaram para fazer deste um mundo melhor. Eles me ensinaram que se existem outras pessoas sofrendo, então, todos nós sofremos. Esta visão é de empoderamento, e não de salvação.
Apliquei esta mesma abordagem quando se tratou de ajudar minha família na Serra Leoa. Como não passei pela experiência deles de ter que se esconder para ficar a salvo durante uma guerra civil, eu não conseguia compreender o escopo dos horrores de um conflito completamente. O que eu podia fazer era ouvir, aprender e ajudar a reconstruir. Não via melhor maneira de honrar toda a minha família do que formando uma organização sem fins lucrativos que agora se chama Sierra Leone Rising.
Sarah e Jim Culberson
Começamos reconstruindo a escola de segundo grau de Bumpe e fornecendo bolsas de estudo, especialmente para meninas, que muitas vezes não têm a oportunidade de frequentar a escola. Agora, estamos tentando levar água limpa para toda a Serra Leoa. Com a ajuda dos Rotary Clubs de Morgantown North, em West Virginia, e East Bremerton, em Washington, somada a um subsídio da Fundação Rotária, já abrimos nove poços e levamos água potável a 12.000 pessoas. Meu pai adotivo e meu pai biológico trabalham regularmente lado a lado para reerguer o Rotary na Serra Leoa, que teve suas atividades interrompidas durante o conflito civil.
Estamos também treinando programadores e ajudando a população com serviços bancários. Estamos construindo um jogo Roblox para que as crianças aprendam sobre os vários países africanos e temos um projeto de desenho animado para ensinar às crianças sobre outras culturas do mundo.
Ser uma princesa não é brincadeira. É um compromisso. É uma responsabilidade. Não foi isso que eu estudei. Eu não tinha ideia de como dirigir uma organização sem fins lucrativos. Mas, às vezes, há um plano maior para nós do qual não temos nem ideia, e coisas maravilhosas podem acontecer na nossa vida.
Artigo publicado originalmente na edição de junho de 2022 da revista Rotary.