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Muitos não têm a quem recorrer

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A chegada de milhares de imigrantes causou demanda acima da capacidade no sistema de saúde em Berlim. Desde 2015, a médica e rotariana Pia Skarabis-Querfeld tem dado assistência aos novos habitantes da cidade.

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Assistindo ao noticiário, Pia Skarabis-Querfeld viu as massas de imigrantes chegando a Berlim, fugindo de guerra, perseguição e pobreza nos seus países.

Para ajudar, ela levou uma mala cheia de roupas ao abrigo improvisado para refugiados montado num ginásio perto da sua casa.

O que teve início como um ato isolado de solidariedade se tornou um grande projeto. Pelos três anos seguintes, Pia criou e ampliou uma rede que chegou a reunir mais de 100 voluntários na ajuda aos refugiados vivendo em centros comunitários, acampamentos e abrigos. 

A organização sem fins lucrativos aberta por Pia, a Medizin Hilft, continua tratando aqueles que não têm a quem recorrer.

Era 2014 quando Pia levou aquela mala de roupas ao abrigo improvisado no ginásio. Faltavam poucos dias para o Natal e ela estava bastante ocupada com o seu trabalho e organizando as festas de fim de ano. O espírito natalino a motivou ainda mais a ser solidária. 

Quando chegou ao local, ela se deparou com crianças doentes e sem tratamento, pois os hospitais da área não tinham mais capacidade de atender à demanda. A lei não permitia a entrega de analgésicos nem xarope a quem simplesmente não estivesse se sentindo bem. Assim, os recém-chegados só podiam buscar tratamento no pronto-socorro se estivessem extremamente doentes.

Pia voltou ao abrigo no mesmo dia com remédios e acompanhada do seu marido, Uwe Querfeld, que é professor de pediatria e também rotariano. 

O casal passou os dias seguintes tratando daquelas pessoas.

'Não dá para esquecer coisas deste tipo’

Em 2015, o ministério alemão responsável por refugiados recebeu mais de um milhão de pedidos de asilo, provocando um uso exponencial do sistema público de saúde. 

Em grande parte pelo convite generoso da chanceler Angela Merkel, a Alemanha se tornou o principal destino de refugiados da Síria e de outros países. Ao contrário de outros líderes europeus, Merkel disse que a Alemanha tinha a responsabilidade de ajudar, e pediu aos seus compatriotas que abrissem os braços para receber os novos habitantes. 

Mas, em 2017, as coisas começaram a mudar. Muitos alemães passaram a ficar indiferentes, e até mesmo céticos, quanto à ajuda aos imigrantes. O equilíbrio de poder no parlamento mudou com as eleições em setembro, e o país ainda está enfrentando problemas logísticos e o alto custo de assistência aos imigrantes.  

Enquanto os embates políticos se davam no Riechstag, o centro do poder alemão, Pia e outros voluntários tratavam pacientes a somente alguns quilômetros dali. 

“Atendi uma menina cuja família apanhou quase até a morte somente porque eram cristãos”, recorda Pia, que é associada do Rotary Club de Berlin-Tiergarten. “Ela começou a sofrer ataques epiléticos depois de levar uma surra que a deixou em coma. Eu não estava acostumada a ver estes graus de cicatrizes e queimaduras.” 

Pia também tratou uma garota síria chamada Saida, que tinha febre e bronquite. Depois do exame médico, Pia notou que Saida estava mancando. Ao pedir à menina que ficasse descalça, Pia teve uma surpresa. “A sola de ambos os pés de Saída estava com infecção. Não dá para esquecer coisas deste tipo.” 

Depois que Saida melhorou com os antibióticos receitados por Pia, ela passou a ajudar a médica na clínica executando pequenas tarefas. O sonho de Saida agora é ser médica quando crescer.

Sanando a grande necessidade

Semanas depois que Pia começou a atender pacientes em clínicas improvisadas, vários profissionais da saúde passaram a fazer trabalho voluntário ao seu lado na ajuda aos imigrantes.

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Em 2017 o projeto Medizin Hilft, da Dra. Pia Skarbis-Querfeld, recebeu prêmio do governo de Berlim.

Foto de Gordon Welters/laif/Redux

No ápice do influxo de refugiados em 2015, o Medizin Hilft contava com mais de 100 voluntários, sem contar as dezenas de e-mails que chegavam diariamente oferecendo ajuda. Além de primeiros socorros, a organização sem fins lucrativos realizava imunizações e ajudava os imigrantes a se beneficiar do sistema público de saúde.

“Muitos dos voluntários se sentiram compelidos a ajudar por se sentirem privilegiados, por morarem num país democrático com fácil acesso às benesses da vida moderna. Eles achavam que tinham este dever humanitário de retribuir”, disse Pia. 

Não demorou para que o Rotary Club de Berlin-Nord passasse a apoiar a Medizin Hilft e a iniciativa despertasse a atenção da mídia. Além do seu trabalho formal, Pia dedicava 20 horas por semana ao voluntariado. Outros Rotary Clubs, como o de Berlin-Tiergarten, se juntaram à iniciativa.

“Teve momentos em que pensei em abandonar tudo, que queria voltar a ter uma vida normal, mas meu senso de responsabilidade por este projeto que crescia tanto retornava com força.” 

Tratamento

Um fluxo constante de pacientes é tratado na open.med, uma clínica financiada pela Medizin Hilft no bairro Zehlendorf, em Berlim.

Uma ganense chamada Anita foi à clínica, que consiste de algumas salas alugadas num porão. Anita estava com dores e sangramento no útero, e a clínica era o único lugar onde ela poderia contar com assistência.

Anita vive à margem da sociedade em Berlim. Sem documentação ou plano de saúde, ela não tem condições de arcar com assistência médica básica. As suas chances de conseguir legalizar sua situação na Alemanha são baixas, já que o seu país de origem, Gana, não consta da lista do governo alemão de países que oferecem grande perigo aos seus habitantes.

"Anita está entre os cerca de 15% dos pacientes da clínica sem documentos ou lugar para morar", diz Dorothea Herlemann, coordenadora da open.med.

Muitos pacientes têm problemas sérios de saúde. Para complicar, eles não falam o idioma e não sabem como obter tratamento. 

Alguns perderam o direito ao sistema público de saúde, geralmente devido a problemas na documentação.

“Para nós, não importa se a pessoa tem a documentação ou não. Elas precisam de assistência e nós as ajudamos. Fazemos campanhas no idioma delas informando como usar o sistema público de saúde. Nosso objetivo não é fundar um sistema paralelo de assistência médica”, disse Dorothea.

Moradia temporária

Medizin Hilft trabalha com a Doctors of the World e outros grupos em acampamentos de refugiados que vivem em contêineres.

Um destes campos fica em Ostpreussendamm, no sudoeste de Berlim, que recebe a visita dos médicos da Medizin Hilft uma vez por semana, e nos demais dias, outros voluntários ajudam os moradores a começar uma nova vida. Entre adultos e crianças, os 280 moradores são da Síria, Afeganistão, Irã, Iraque, Eritreia, Somália, Camarões, Rússia e Togo. Muitos deles continuam sofrendo com o trauma dos horrores que viveram antes de chegar na Alemanha.

Khalat Saleh, de 26 anos, recebeu asilo político. Ele é do Curdistão iraquiano e se locomove com cadeira de rodas. Com o pouco do alemão que ainda está aprendendo, ele explica a sua luta para fazer o asseio diário e comer. Khalat recebeu assistência dos médicos da Mediizin Hilft várias vezes, e estes voluntários o ajudam a ter os cuidados de que precisa. O sonho dele é trabalhar com computação.

Karmen Ishaque, de 31 anos, fugiu da perseguição religiosa do seu Iraque natal e foi autorizada a permanecer na Alemanha por três anos com status de refugiada. Com problemas de hipertensão e risco de desenvolver diabetes, ela foi tratada pela Dra. Barbara Grube, da open.med.

Karmen viveu no acampamento de Zehlendorf por alguns meses até se mudar para um quarto. Ela chegou na Alemanha no começo de 2015 e quer trabalhar como professora de prezinho.

De olhos no futuro

Nem todos os que buscam refúgio na Alemanha conseguem aprovação do seu status tão rápido como Karmen, tampouco conseguem se integrar na sociedade. Muitos são deportados ou convidados a sair do país. 

As coisas também mudaram para a Medizin Hilft. 

“Ficou muito difícil atrair voluntários atualmente. O clima político mudou e o apelo em favor dos refugiados não está em tanta evidência como antes”, disse a Dra. Laura Hatzler, voluntária na open.med.

Para Laura, que trabalha com Pia na ajuda aos imigrantes desde o começo da Medizin Hilft, o trabalho da iniciativa está longe de acabar, mesmo enfrentando a diminuição do interesse e apoio. O que motiva Laura a continuar seguindo em frente é a alegria de dedicar seu tempo por algo em que acredita. 

Com o fim do Subsídio Global de US$160.000 do Rotary, em 2018, Pia passou a se preocupar com o futuro da iniciativa. Ela sabe que não será fácil integrar milhares de imigrantes na sociedade e economia alemãs.

“Ninguém, nem mesmo os políticos, sabem onde estaremos daqui a 10 anos. Mas eu penso como será o futuro da Saida, a menina síria que quer ser médica quando crescer.”

• Rhea Wessel, americana e escritora freelance, mora em Frankfurt, na Alemanha

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Saiba mais Doe

Refugiados sírios na Nova Scotia. Leia.

  1. Os rotarianos Pia Skarbis-Querfeld e Wilhelm Buerklin visitam o acampamento de refugiados em Zehlendorf.

    Foto: Andrew Chudzinski

  2. Subsídio Global do Rotary de US$160.000 possibilitou à Medizin Hilft administrar a clínica open.med.

    Foto: Andrew Chudzinski

  3. A famacêutica Sabine Weyermann e o enfermeiro Jens Peter Schmidt separando os remédios recebidos pela clínica.

    Foto: Andrew Chudzinski

  4. A coordenadora assistente da Medizin Hilft, Burcu Guvenc (à direita), com a coordenadora do projeto, Dorothea Herlemann, e a Dra. Pia Skarabis-Querfeld.

    Foto: Andrew Chudzinski

  5. Burcu Guvens, à esquerda, e Dorothea Herlemann, coordenadoras que prestam serviços na Medizin Hilft, falando com voluntários e pacientes.

    Foto: Andrew Chudzinski

  6. O enfermeiro Jens Peter Schmidt se preparando para visitar os refugiados que moram no acampamento de Zehlendorf. 

    Foto: Andrew Chudzinski