Skip to main content

Militares veteranos encontram alegria e cura na arte da palhaçaria

por

O ano é 2015 e Bruce Reges está vestido de palhaço durante uma visita a um orfanato na Guatemala.

Com 1,80 m de altura, ele é um show à parte, contudo, não está se achando muito engraçado. Apesar do nariz vermelho e do fantoche na mão, sua mente está perpetuamente povoada das lembranças ruins do Iraque, onde presenciou um fluxo interminável de morte e destruição enquanto servia como primeiro-sargento do Exército dos EUA, entre 2006 e 2008.

“Posso brincar com ele também?”

Reges sai do devaneio ao escutar a voz da adorável garotinha de sorriso tímido pedindo para brincar com o fantoche. Treinado como soldado para agir com firmeza, ele baixa a guarda e dá a marionete à criança, chamada Wendy. Reges acabará descobrindo que a arte da palhaçaria tem poderes terapêuticos.

Para Reges e outros militares veteranos que são associados do Rotary Club de Big Rapids, esta arte consegue curar algumas das feridas invisíveis deixadas pela guerra.

Os integrantes do grupo Michigan Warrior Clowns apresentam-se em lares de veteranos, festivais de rua e exposições de automóveis.

Foto: Darren Iozia

“Ao atuar como palhaço, você cria boas memórias para substituir as ruins”, revela Reges, refletindo sobre tudo o que aprendeu com a palhaçaria desde aquele dia de 2015. “Isso te dá uma arma para lutar contra as coisas difíceis.”

Desde a antiguidade, os palhaços usam o humor para fazer as pessoas rirem, pensarem e se conectarem. Eles são os mímicos da Roma antiga, os bobos da corte da Inglaterra medieval, os xamãs sagrados da nação Sioux.

Como forma de terapia, a palhaçaria não é novidade, mas um nicho. “Ser palhaço não é para todo mundo”, diz John Bair, rotariano que vive nos arreadores de Chicago e psicólogo clínico que trabalhou com veteranos de guerra no Captain James A. Lovell Federal Health Care Center por 30 anos. “Há pessoas que têm medo de palhaços.”

A palhaçaria terapêutica surgiu da prática do psicodrama, desenvolvida entre o início e a metade do século XX pelo psiquiatra Jacob Levy Moreno, que incentivava os pacientes a representar seus problemas. Como um tipo de terapia expressiva — que inclui arte, música e movimento — a palhaçaria motiva as pessoas a explorar suas emoções. “Quem tem trava emocional consegue se libertar e focar no presente”, diz Bair. “Sem assumir uma nova personalidade, não tem como você fazer as pessoas rirem.”

Para alguns veteranos, a volta à casa depois da guerra vem acompanhada de sentimentos de alienação e torpor. Eles são frequentemente diagnosticados com problemas de ordem mental, como depressão, transtorno de estresse pós-traumático ou ideação suicida. A palhaçaria não é um modo de cura, mas Bair afirma que ela proporciona uma sensação de segurança e dá aquele impulso a quem precisa.

Reges voltou do Iraque em 2008 com uma lesão cerebral que mudou sua personalidade. Ele ficou traumatizado com a morte de 143 soldados da sua base durante os 15 meses que passou no país e, para complicar ainda mais, estava desempregado. Com o tempo, sua esposa pediu o divórcio e ele acabou perdendo a casa por não pagar a hipoteca. “Eu não queria fazer mais nada na vida”, lembra ele. “Só queria ficar longe das pessoas.”

Felizmente, a arte cênica fazia parte da vida de Reges. Sua mãe era marionetista e, quando estava no ensino médio, Reges trabalhou em meio período como palhaço no Bozo's Big Top, um programa local de televisão.

Décadas depois, no Iraque, o reservista do exército foi designado para assuntos civis com funções que incluíam ajudar a reconstruir escolas. Ele logo percebeu que as crianças iraquianas tinham pavor dos soldados americanos ao vê-los de uniforme completo. Foi assim que Reges pediu à sua mãe que lhe enviasse alguns fantoches. As crianças adoraram, assim como Reges e seus companheiros de tropa. Ele até criou uma organização sem fins lucrativos chamada Peace Through Puppets.

Mas, na vida pessoal, ele continuava sofrendo e precisava urgentemente de alegria no seu cotidiano. Foi aí que o palhaço do passado voltou em cena.

Arte que cura

A palhaçaria é um subconjunto da terapia expressiva, na qual os praticantes usam a arte para expressar e processar emoções e experiências. Outros tipos de terapia expressiva incluem:

  • Musicoterapia
  • Arteterapia
  • Dança e movimento
  • Dramaturgia

Por volta de 2015, Hunter “Patch” Adams, o médico-palhaço famoso interpretado por Robin Williams no filme de 1998 sobre o homem que usava o humor para fins de cura, queria enviar um grupo de veteranos com Transtorno de Estresse Pós-traumático (TEPT) para a Guatemala para lhes ensinar a arte da palhaçaria.

O psicólogo clínico Mark Kane, que aconselhou veteranos por quase 20 anos no Grand Rapids Vet Center, ficou intrigado com aquilo. Ele usava abordagens inovadoras nos seus tratamentos, incluindo som de tambores e terapia equina. A mãe de Kane tinha sido palhaça e usava o humor para formar conexões, inclusive para lidar com as tensões raciais em torno da integração escolar na década de 1960. 

Kane recrutou um grupo de veteranos com problemas de ordem mental para ir à Guatemala com Adams. Reges era um deles. Os integrantes do grupo se vestiam a caráter e voltavam a ser crianças durante visitas a orfanatos e hospitais. Em vez de fuzis M16, eles levam consigo os típicos narizes vermelhos de um palhaço quando visitam países em desenvolvimento.

A ciência apoia a ideia de que a palhaçaria beneficia não apenas o público, mas também o artista: o cérebro produz hormônios do bem-estar, como a oxitocina e a dopamina. Para alguns dos veteranos, atuar como palhaço na Guatemala marcou a primeira vez em que eles se divertiram após anos. “Eles dizem que se sentam mais soltos quando colocam a peruca, a maquiagem, o nariz e começam a atuar”, relata Bair.

A partir da esquerda: O veterano Ken Vaughan e os associados do Rotary Club Tara Braun, Mark Kane, Russ Nehmer e Bruce Reges em um parque de Big Rapids. A ciência apoia a ideia de que a palhaçaria beneficia não apenas o público, mas também os artistas.

Foto: Darren Iozia

Depois de se aposentar, Kane continuou no grupo atuando como palhaço. Ele retornou à Guatemala pela segunda vez. Como o palhaço Marcos, ele se uniu a veteranos e deu início ao grupo Michigan Warrior Clowns, que se apresenta em lares de veteranos, desfiles, marchas, festivais de rua e exposições de automóveis. Eles já realizaram casamentos de palhaços e até mesmo um funeral.

Nem todos os membros do Michigan Warrior Clown são veteranos. Kate McGlynn, cujo nome de palhaça é Katy Bee, abriu um negócio de palhaçaria quando estava lutando contra TEPT decorrente de abuso doméstico. “A palhaçaria me salvou.” Quando McGlynn está se apresentando, sua determinação de espalhar alegria relega suas próprias dificuldades a segundo plano. Ela viu o mesmo efeito em outros, incluindo os integrantes do grupo Michigan Warrior Clowns, que ela chama de “pelotão bobo”.

O grupo Michigan Warrior Clowns promove conexões. Mark Kane e Clifford Kilbourne, que serviram no Vietnã, fazem uma refeição junto com outros integrantes do grupo.

Foto: Hannah Shaw

“Eles precisam apenas ser eles mesmos e sorrir quando estão diante das pessoas. Eles se tornam o personagem e não precisam provar nada a ninguém”, diz ela. “Eles são simplesmente adoráveis, e sei que antes não eram assim.”

Foi a palhaçaria que conectou Reges e Kane ao Rotary. As viagens à Guatemala se tornaram o tema do documentário de 2019 chamado Clownvets. Naquele ano, o Rotary Club de Big Rapids arrecadou dinheiro para enviar veteranos ao festival de cinema Cinequest, na Califórnia, para a exibição do documentário.

O grupo Michigan Warrior Clowns promove conexões. Mark Kane e Clifford Kilbourne, que serviu como médico no Vietnã, sentam-se para uma refeição com outros membros do grupo.

O apoio deles significou muito para Kane, que se associou ao Rotary e incentivou Reges e outros veteranos a fazerem o mesmo. O clube de Big Rapids continua apoiando os Michigan Warrior Clowns até hoje.

Para Reges, a palhaçaria e o Rotary lhe abriram portas de integração com o semelhante. “Se não fosse por isso, continuaríamos isolados porque não queríamos nos entrosar”, informa. “E o Rotary facilita o meu envolvimento com a comunidade.”

As lembranças do Iraque ainda não se dissiparam da memória de Reges, que sente o peso da perda de tantos colegas. “Ouço eles sussurrando no meu ouvido: ‘O que você vai fazer com o tempo que a vida lhe permitiu ter?'"

Seja dando uma marionete de presente a uma criança, levando alegria a alguém em dificuldade ou servindo à comunidade por meio do Rotary, ele sabe a resposta.

Artigo publicado na edição de junho de 2025 da revista Rotary.

Os membros do Grupo Rotary em Ação por Iniciativas de Saúde Mental se dedicam à melhoria da saúde da mente e à formação de vínculos de amizade.