Um programa de restauração de carros clássicos e antigos abre caminho para jovens em situação de risco

Um programa de restauração de automóveis clássicos apoiado pelo Rotary ajuda jovens a desenvolver habilidades, autoconfiança e caminhos para a educação e carreiras gratificantes

Por Katya Cengel
01 fev. 2024

Foto: Ian Tuttle

Natalia Montiel coloca luvas para trabalhar uma lâmina de metal do tamanho de um caderno. A adolescente de longos cabelos pretos segura um maçarico e pergunta a Tom Forgette, seu instrutor na arte da reparação de automóveis clássicos e antigos: “É esta a mão que me guia?”.

“Esta mão te estabiliza”, corrige Forgette. “Sou eu quem te guia.”

Forgette, que é muito preciso no que faz, é conhecido nesta parte central do estado da Califórnia. Minutos antes, ele instruíra Natalia a esperar até que uma chama aparecesse para só depois ajustá-la com a válvula de oxigênio. Forgette observa enquanto ela usa o maçarico para cortar o metal, uma habilidade que ela precisará aperfeiçoar para conseguir reparar carrocerias. “Você está perto demais”, diz ele, para em seguida alertá-la: “Agora você se afastou demais.”

Numa garagem arejada, com pé direito alto, entrada aberta e cercada de autopeças, pilhas de pneus e ferramentas, Natalia se concentra. Uma tira de metal cai no chão com um corte reto. Era o que Forgette queria. Se ela tivesse errado, a tira de metal teria ficado presa. Ainda assim, Forgette faz sua aluna repetir o processo e ela não reclama. Natalia rapidamente conquista o respeito dele neste ofício que continua sendo dominado por homens. “Ela está progredindo”, afirma o instrutor.

Loading component...

Caçula de seis irmãos, Natalia cresceu vendo o pai, David, consertar carros. No México, seu país natal, ele era mecânico. Em Salinas, na costa central da Califórnia, seu pai consertava carros para familiares. Natalia o ajudava passando-lhe ferramentas e segurando uma lanterna. Ela sabia que poderia fazer mais, mas seu pai não imaginava sua “princesinha” seguindo seus passos como mecânica.

Com o passar do tempo, ela deixou os carros de lado e se viu em um caminho arriscado, tendo por companhia amigos desmotivados e viciados em maconha. “Os meus dias eram sempre a mesma coisa”, recorda ela. “Não gostava de ir a lugar nenhum.”

No terceiro ano do ensino médio, um orientador sugeriu a ela que frequentasse uma escola profissionalizante alternativa chamada Rancho Cielo, que também ajuda com serviços sociais e ensina habilidades do dia a dia. Quando Natalia soube que a organização sem fins lucrativos tinha um programa automotivo, ela se matriculou. “Eu achei aquilo tudo de bom; era exatamente o que eu queria”, lembra ela.

Natalia começou o curso em novembro de 2022. Em julho do ano seguinte, ela era uma das seis aprendizes do curso de reparo de automóveis clássicos e antigos da escola, ministrado por Forgette.
 



A comarca de Monterey, onde fica Salinas, é um dos maiores centros de carros clássicos e antigos do país. As corridas destes tipos de carro acontecem todos os anos na famosa WeatherTech Raceway Laguna Seca. E há o Pebble Beach Concours d'Elegance, que se autodenomina o salão de automóveis mais prestigiado do mundo. “Como cresci em Salinas, era fascinada em olhar os carros clássicos passando pelas ruas. Trabalhar com eles era um sonho.”

Foi esse legado automotivo da região que inspirou os rotarianos Mark Grandcolas e Richardson “Ric” Masten a criar o curso de restauração de automóveis clássicos e antigos. De certa forma, eles formam uma dupla improvável. Enquanto Grandcolas prefere calças cáqui justas e mocassins, Masten usa sapatos e calças sociais. “Mark é o cara que trabalha nos bastidores”, diz Masten, que tem 85 anos e foi corretor de ações e títulos. “E ele também é a fachada da empresa.”

Engenheiro de 67 anos, Grandcolas se aposentou cedo e foi viver no México, depois que sua startup de software cresceu. Foi lá que ele se associou ao Rotary. Ele retornou aos EUA em 2019 para cuidar da mãe idosa e entrou para o Rotary Club de Carmel-by-the-Sea, em Monterey, e passou a integrar a Comissão da Fundação Rotária do seu clube, presidida por Masten. Rotariano há quase meio século, Masten estava interessado em começar a trabalhar com Subsídios Globais da Fundação Rotária.

Loading component...

Grandcolas, que foi do Rotary Club de San Miguel de Allende-Midday, no México, tinha elaborado projetos que receberam Subsídios Globais. Ele formou um grupo de associados do Distrito 5230 interessados em projetos de Subsídios Globais e pediu que dessem ideias. Foi aí que Masten pensou no reparo de carros.

O primeiro carro de Masten, um Pontiac Eight Cabriolet conversível de 1938 que ele comprou por US$ 200 quando tinha 16 anos de idade estava com problemas, o que o motivou a aprender a desmontar o motor do veículo. Esta habilidade era ensinada nas aulas de mecânica de autos no ensino médio. A redução no número de cursos profissionalizantes no ensino médio é uma das razões pelas quais Masten pensou em um programa de treinamento automotivo. A outra foi a necessidade. Como proprietário de dois Bentleys, um de 1937 e um de 1954, e membro de vários clubes de carros clássicos, Masten está ciente de que o número de mecânicos que sabem consertar estas raridades está diminuindo rapidamente. “E não há quase ninguém para substituí-los”, diz Masten. “Eles estão se aposentando ou morrendo.”

A definição exata de carros clássicos varia. Grandcolas considera como clássico qualquer veículo fabricado antes de 1983, enquanto outros dizem que tem que ser antes de 1975, e outros ainda acham que qualquer carro com mais de 20 anos de idade classifica como carro clássico. E há as subcategorias de carros vintage, antigos e de colecionador. O que não está em debate é que os mecânicos treinados para trabalhar em carros modernos não sabem necessariamente trabalhar em automóveis clássicos, pois se trata de ofícios totalmente diferentes. Na década de 1980, a indústria automobilística estava passando pela acelerada transformação de componentes mecânicos para eletrônicos, explica Grandcolas. Ninguém mais queria carburadores e distribuidores. “Para consertar um carro moderno hoje, você precisa de um computador para saber qual é o problema”, afirma Grandcolas. “Um computador não tem nenhuma utilidade em se tratando de carros clássicos”, explica ele. “Para carros mais antigos, você precisa de alguém com bons olhos e ouvidos.”

Não é apenas o interior de um carro clássico que é diferente. Ao contrário dos carros modernos que usam várias peças de plástico na estrutura e na carroceria, o exterior da maioria dos carros clássicos são feitos inteiramente de metal, material mais difícil de reparar e de substituir suas peças. Embora o número das pessoas treinadas para consertar carros antigos esteja diminuindo, este tipo de carro não está. Só nos EUA, existem cerca de 31 milhões de veículos de colecionador, de acordo com uma pesquisa realizada pela Hagerty, empresa de seguro especializada em carros clássicos.

Os rotarianos sabiam que havia uma demanda e que o treinamento poderia oferecer um caminho para a faculdade e carreiras bem remuneradas para os jovens. Eles só precisavam de um lugar, e o encontraram no Rancho Cielo.
 



O rancho era como um sonho impossível para o juiz aposentado John Phillips. Magro, alto e com 81 anos de idade, Phillips foi promotor público de Monterey e seu trabalho consistia em encarcerar os réus. Em 1984, foi indicado ao Tribunal Superior da Comarca de Monterey. Em ambas as funções, ele observou como as gangues estavam predominando na região. Perto de se aposentar, ele se viu mandando adolescentes para a prisão perpétua. “A maioria destes jovens havia perdido a esperança no futuro”, lembra ele. “É muito fácil puxar o gatilho duma arma se você não tiver esperança, sonhos ou algo que valha a pena.”

Em 2000, Phillips fundou o Rancho Cielo, um programa projetado para oferecer aos jovens que eram réus primários uma alternativa ao encarceramento, acompanhada de um recomeço. Ele criou o programa em um local na zona rural que já havia abrigado um centro de detenção juvenil. Phillips alugou a área do governo e começou a trabalhar. Com um orçamento operacional de US$ 75.000 e a colaboração da sua esposa, Patti, ele recebeu a primeira turma de 12 jovens em 2004, no mesmo ano em que se aposentou. A partir daí, o Rancho Cielo cresceu para o que é hoje, uma organização sem fins lucrativos com um orçamento de mais de US$ 5 milhões e um quadro de funcionários de quase 50 pessoas.

Loading component...

Loading component...

Loading component...